segunda-feira, 14 de agosto de 2017

LEVEZA


Autor: Porto de Carvalho
Escrito em 3/8/2017

Uma vida de infeliz é uma vida sem sentido: com sentido/s sem sentido.

O sentido não precisa ser (geralmente não é) nobre.

Não se precisa, por exemplo, com seu sentido, ajudar a humanidade, o planeta ou Deus. Deus, por acaso, precisa de nós?

O sentido é só seu e pode ser uma mentira.

Na verdade, os sentidos costumam ser mentiras em alguma medida.

Isso significa que viver uma grande mentira, ou várias, leva mais facilmente à felicidade.

Pessoas que se preocupam com a verdade ou com um sentido para a vida e não o encontram (o impossível não se atinge.), acabam entristecendo-se.

Logo uma vida de mentira/s, com sentidos sem sentido, é uma vida mais feliz, uma vida de bicho que acorda, come e dorme, uma vida de pessoa boba que ri de tudo, uma vida de pessoa má que ri de todos, uma vida leve.

Uma vida feliz, de infeliz, é uma vida sem sentido.

TAL MÃE, TAL FILHA


Autor: Porto de Carvalho
Escrito em 1/8/2017

A filha ia na frente.

O filho d’outra mãe ia atrás.

À frente dos dois, ia a mãe da moça: a filha seguia os passos da mãe.

O filho, por causa do grande atributo da filha, andou tanto atrás dela que passou a acompanhá-la pelo lado, de mãos dadas.

O filho só tinha olhos para a filha, não para a mãe. Não percebia que o atributo da filha era o da mãe, mas nesta já corrompido pelo tempo.

Com o tempo, o filho deixou um pouco de lado, ou melhor, cada vez mais, isso de atributo: apaixonou-se pela filha e passou a amá-la. Sabia que o tempo fica e as pessoas passam. Por isso, queria estar ao lado da filha o máximo possível.

O filho ficou com a filha para todo o sempre dele ou dela (alguém foi primeiro.): aproveitou-se do atributo até ele permanecer interessante e, mesmo não mais interessante para os outros, para ele, continuava marcante, como importantíssimo detalhe daquela agora mulher madura. E por que importante? Porque o atributo atraiu o filho primeiramente para construírem (o filho e a filha) uma linda história de amor.

Para o filho, a filha passou a ser muito mais que corpo, passou a ser alma, mulher.  

SAUDADE


Autor: Porto de Carvalho Porto
Escrito em 3/4/2017

A saudade bateu.
Bateu,
Bateu,
Bateu.
Bateu tanto que acabou apanhando.
Mas aquele em que ela bateu acabou morrendo:
Parou de sentir dor.
Mas a saudade continuou viva
E não quis saber:
Continuou batendo,
Batendo,
Batendo,
Sentindo dor.

MORTO-VIVO


Autor: Porto de Carvalho
Escrito em 13/8/2017

Viver é doer até morrer.

Vai-se vivendo,
E vai-se doendo,
E vai-se aprendendo,
E vai-se morrendo.

Porque a morte se chega
Para a maioria bem nutrida aos poucos.
Na primeira linha deste texto
Estávamos mais vivos;
Nesta, mais mortos.

Mortos-vivos, mais aprendidos,
Ou desaprendidos
(porque para aprender é preciso também esquecer.),
Até que só mortos,
Mas muito mais libertos. 

DAS PREFERÊNCIAS DOS POBRES


Autor: Porto de Carvalho
Escrito em 26/2/2017

— Uoxintom,  qual as três coisas preferidas pelos pobres?

— Cerveja, churrasco e futebol.

— Que bobagem, Uoxintom, deixe de ser ridículo. Você está sendo etnocêntrico e preconceituoso! E o pior: com você mesmo.

— Por quê?

­­— Etnocêntrico porque considera preferências nacionais como gerais e preconceituoso porque não só os brasileiros pobres, ou pobres brasileiros, gostam de cerveja, churrasco e futebol.

­­— Na sua opinião, qual seria então as preferências dos pobres?

— As três coisas preferidas dos pobres são: a mentira, o espetáculo e a tragédia.

Que pobreza de espírito...

— É verdade! E olha... as três se associam. A tragédia se faz tragédia porque costuma ser espetacularizada pelo pobre por meio da mentira. A mentira não precisa ser necessariamente mentira, pode ser exagero, e o mais importante é quando a mentira se torna mito. Repare que por trás de todo mito há tragédia e espetáculo. É o mito que dá sentido à vida.

— Não sei não... se as preferências dos pobres fossem essas não precisariam de cerveja, churrasco e futebol. Além disso, vejo mais comédia que tragédia na cerveja, no churrasco e no futebol.

— E não percebe que neles há mentira, tragédia e espetáculo respectivamente?

— Percebo. Então estava certo?

— É... parece que sim.

­­­— Etnocêntrico! Preconceituoso! 

SUPER-HERÓI


Autor: Porto de Carvalho
Escrito em 11/7/2017

Um superpoder que gostaria de ter era o de poder sujar meus inimigos a distância.

Seria mais ou menos assim: iria ao trono de semideus superpoderoso, mentalizaria o inimigo e o sujaria.

Nada de vinganças muito pesadas — estuprar, matar ou aleijar —, só sujar.

Aí, no outro dia, com a cara mais limpa do mundo, perguntaria para a pessoa: está tudo bem? 

MINHA MARCA NA HISTÓRIA

BANKSY
Autor: Porto de Carvalho
Escrito em 17/10/2016

Acabo de descer da Torre Eiffel. Paris é muito mais bonita lá de cima. Da Champs-Élysées, vou ao Louvre. Minha missão? Entrar para a história. Mas como? Deixando minha marca na obra de arte mais valiosa do mundo, a Monalisa.

Passar pela segurança não foi difícil. Comportei-me normalmente e não levei nada de metal. Difícil foi chegar até a Monalisa. Ela está sempre com visitas.  As pessoas não podem aproximar-se muito porque havia uma espécie de cordão de isolamento entre elas e a obra. O quadro também é protegido por uma moldura de vidro. Pesquisei na internet e descobri que a proteção não era à prova de bala.

Próximos à pintura estavam dois funcionários do Louvre. Eram responsáveis por vigiar os visitantes que, antes de tudo, fotografavam a obra.

Aproximei-me, depois de passar por vários japoneses, o máximo que pude da Gioconda. Coloquei-me de costas e fiz que tiraria uma selfie. De uma só vez, passei por baixo do cordão, dei um salto e chutei a proteção de vidro com toda força. Ela espatifou-se, e, em pouco tempo, já tinha arrancado o quadro do local em que se encontrava.

Todos começaram a se agitar e gritar. Eram tantos os idiomas que não podia entender nada. Só entendi o murro que tomei no rosto. Em poucos segundos, tinham-me agarrado e me segurado no chão. Ainda segurava o quadro com minha mão esquerda, quando me livrei parcialmente daqueles que me continham e levantei-me. Fui capaz de contemplar por uns instantes a Monalisa sobre o chão. Tentei puxar o canivete cortante de plástico que carregava no bolso, mas, no exato momento que enfiei a mão direita no bolso da calça, do nariz, caiu-me uma enorme gota de sangue bem no rosto da Gioconda.

Finalmente fui completamente imobilizado. Só pude observar a multidão enlouquecida: gritos, empurrões, sopapos, fotos, filmagens faziam parte do espetáculo.

De uma só vez, um gordo com a blusa da América puxou o quadro de mim. Mas, quando ia sair do salão em que nos encontrávamos, foi surpreendido por um senhor que, gritando palavras de ordem em alemão, puxou o quadro das suas mãos. Devido ao puxão, a obra-prima saiu voando, mas foi agarrada, ainda no ar, por um japonês que se desequilibrou ao cair no chão, derrubando um italiano que ria de toda confusão. Para piorar, um inglês acabou enfiando, meio sem querer, o dedão no olho esquerdo da Monalisa, furando feio o quadro.

A obra-prima, rasgada, cheia de impressões digitais, banhada em sangue, foi recuperada por um dos seguranças que apareceu logo após o alarme tocar. Eu fui arrastado de lá como o pior dos criminosos do mundo.

Até hoje estou preso. Aqui na cadeia sou famoso. Na verdade, não só aqui. Fiquei sabendo que posso ser encontrado, facilmente por meio de qualquer pesquisa rápida na rede, como o homem capaz de ter deixado o DNA na mais importante obra de arte do mundo.

LOUVRE


Autor: Porto de Carvalho
Escrito em 20/9/2016

Eu não conheço o Louvre.

Bom... na verdade, até estive no Louvre, mas não o conheço. Não o digo simplesmente pelo fato de o Museu ser grande e não ter sido possível em poucas horas analisar tudo o que oferecia. Na verdade, o Louvre é até pequeno para tanta arte.

Um japonês logo aqui!  

Passamos a competir. Quem seria capaz de registrar mais obras em cinco ou seis horas?

Ele ganhou; ou melhor, ambos perdemos.

A coleção de selfies ganhou.

Temos que voltar ao Louvre.

ORNITORRINCA (ou ÂNIMA)


Autor: Porto de Carvalho
Escrito em 3/8/2016

— Deus, que aberração! O que é aquilo ali?

— É minha filha! Feita quase à minha imagem e semelhança!

— Perdão, Senhor! Mas onde estaria sua perfeição em tal criatura?

— No meu pelo, encontrarás o conforto que necessitar; mas, com o veneno que ferires, serás ferido por meus tornozelos, e não os dela! Logo, aquele que por meu bico se guiar, do ovo dela renascerá!

Desperto, Nabucodonosor começou a matutar sobre seu sonho.

— Por que a fêmea daquela criatura não possuía esporões venenosos e deitava ovos?

Descobriu, sem saber, sua ânima.

sábado, 29 de julho de 2017

ALMAS GÊMEAS (ou SEXOS GÊMEOS)


Autor: Porto de Carvalho
Escrito em 24/7/2017

Alma gêmea não existe. Você romântico/a pode procurar em qualquer lugar e época, e não achará a sua. Porém existem várias almas quase gêmeas para todos nós.

Esse negócio de procurar a alma gêmea pode levar a uma busca incansável pelo impossível para o resto da vida. Vocês já repararam que muitos cantores que cantam o amor sexual, cantores românticos, costumam se apaixonar várias vezes, logo se casar e se separar várias vezes? Então... é que foram/são hierarquizados para uma busca incansável pelo amor perfeito, inclusive as músicas que cantam demonstram isso e os levam a (re)acreditar nessa utopia. Mas alma gêmea não existe, repito. O que existe é o dia a dia cheio das imperfeições daquela que consideramos nossa alma gêmea. Aí, vem a separação. Porém, com fé, o romântico parte para a próxima paixão e, se possível for, para mais uma e mais uma. Essa busca é um tipo de imaturidade sexual.

Outro tipo de imaturidade sexual é o da pessoa que prioriza a beleza física. Não é à toa que são os homens, quase todos imaturos, ou as mocinhas, tipo aquelas de fãs clubes, feias, e/ou rejeitadas, e/ou com baixa autoestima, que costumam agir assim. Por isso, é mais comum a valorização extrema da beleza acontecer na pré-adolescência e na adolescência. Porém, no caso dos homens, costuma continuar vigorosa a vida inteira. Com a maturidade, outros valores, muito mais importantes, passam a ser considerados pelos amantes. Mas muitas pessoas não amadurecem sexualmente nunca.

Repito: alma gêmea não existe. O que existe é corpo gêmeo. Mesmo assim, os corpos para serem gêmeos têm que ser da mesma placenta e, mesmo neste caso, só o corpo é gêmeo. Para vocês terem uma ideia, apesar de possuírem o mesmo genoma, os gêmeos univitelinos têm impressões digitais diferentes. Assim, se seu irmão gêmeo monozigótico cometer um crime e colocar a culpa em você, não se preocupe: aponte o dedo para ele e depois carimbe o dedo na delegacia. Estará livre. E a diferença vai além: gêmeos univitelinos têm personalidades diferentes, logo desejos e sonhos diferentes. É uma outra cabeça, cérebro que se vai formando, logo uma outra alma. A alma é a consciência que nós temos de nós mesmos como seres individuais. Só isso. Logo, alma existe, mas só existe enquanto estamos vivos. Espere aí... ou será que as consciências ficam vagando pelos universos e, depois, entram em outros corpos? As informações não se perdem nem mesmo quando passam por buracos negros...

Agora uma coisa interessante com relação aos gêmeos (todos) é que é comum se encontrarem gêmeos, independentemente do sexo, com a mesma sexualidade. Será por quê? Sei que a sexualidade não é definida biologicamente. Talvez a hierarquização quanto à sexualidade já comece no ventre da mãe, mas num processo de fora para dentro, em que os estímulos exteriores afetam aqueles que estão no interior...

De qualquer forma, o que interessa é que seja permitido que os gêmeos (na verdade, todas as pessoas) possam encontrar o amor onde queiram, inclusive em pessoas de sexo gêmeo a eles (a população não aumenta.) e que a busca infantil pela alma gêmea continue a nos levar às relações, aos filhos e à sobrevivência da espécie (a população geralmente aumenta.). Hoje em dia, a população não aumentar é melhor para todos os seres do planeta.



GRAVIDADE SENTIMENTAL


Autor: Porto de Carvalho
Escrito em 12/7/2017

Sentimentos, sejam de amor, sejam de ódio, alteram o espaço-tempo. É o que chamo de gravidade sentimental. Quanto mais fortes (massudos) os sentimentos mais forte é a gravidade sentimental. Eles criam essa gravidade.

Os sentimentos contribuem para que se formem pequenos sistemas solares pessoais cada um com características emocionais parecidas. É algo tão forte que, em pouco tempo, pessoas que acabaram de se conhecer (ou nem se conheceram ainda), numa sala de aula, por exemplo, organizam-se, formando grupos com características específicas. Às vezes, um corpo pessoal não se adapta bem a determinado sistema. Aí, ele sai ou é expulso.

Os sentimentos chegam antes que qualquer pessoa a um lugar, já o modificando e afetando as pessoas. Isso ocorre de pessoas para pessoas em todos os sentidos e em todos os tempos: passado, presente e futuro.

Quanto maiores os vários tipos de sentimentos de amor e ódio de uma pessoa maior a gravidade sentimental age sobre o sistema pessoal. A isso damos o nome de carisma. Nesse sentido, é possível ensinar tanto sentimentos de amor quanto de ódio, que se irradiam em todos os espaços e tempos. Por isso, sempre devemos tomar cuidado com líderes carismáticos (de grandes massas), pois, num sistema solar pessoal, ele é o sol. Porém ninguém quer (ou quer?) rodear uma estrela prestes a se tornar uma anã branca. Lembremo-nos, por exemplo, de Hitler. De qualquer forma, os líderes carismáticos são rodeados não por vítimas inconscientes que são simplesmente arrastadas, mas por pessoas sentimentalmente ligadas a ele e entre si. Dessa forma, elas também são responsáveis pela formação dos sistemas solares pessoais em que se encontram.

Existe um ambíguo sentimento que ajuda a comprovar mais facilmente a existência da gravidade sentimental: a inveja. Esse sentimento leva a se direcionar ódio a uma pessoa que, na verdade, se admira, ama. E por que, por meio dele, é fácil comprovar a existência dessa gravidade? Porque ele é forte, incontrolável. O invejoso não se segura e, por isso, busca o tempo todo interagir, afetando uma ou mais pessoas do sistema ao longo do tempo. Pessoas mais sensíveis conseguem percebem rapidamente a gravidade sentimental. O olho gordo (mau-olhado) existe. O olho gordo não tem esse nome à toa, o nome remete à grade massa do corpo. Cuidado com olhos gordos!

AS AVENTURAS DA BARATINHA LULU NA CASA DA DONA JUDITE E AS AVENTURAS DE DONA JUDITE NA CASA DE DEUS


Autor: Porto de Carvalho
Escrito em 25/7/2017

A baratinha Lulu mora nos subterrâneos da casa da dona Judite.

Dona Judite não sabe que divide a casa com a baratinha Lulu. Dona Judite dorme cedo.

À noite, a baratinha Lulu sai para jantar pela casa de dona Judite. Ela come papel, couro, cola, cocô, absorvente usado, arroz, feijão, bife e batata frita, macarrão, pele, calo, unhas, gente morta, resto de comida na boca das crianças. Ama tomar cerveja, mas detesta pepino.

Um dia, a baratinha Lulu estava dentro da lixeira da dona Judite comendo muxiba. Aí, o escorpião Geofrey viu aquele bundão da baratinha Lulu e enfiou o ferrão nela, que morreu, mas não de prazer, de veneno.

O seu Clovis, marido da dona Judite, acompanhado dela, acendeu a luz e viu o escorpião Geofrey comendo a baratinha Lulu. Seu Clovis deu um grito (ele odeia escorpiões.), dona Judite deu outro grito (ela odeia baratas.) e o escorpião Geofrey picou a mula.

No outro dia, seu Clovis colocou a galinha Piradinha dentro de casa para ela devorar o Geofrey (eles têm galinheiro.). A galinha cagou a casa toda e não se sabe se achou o escorpião. Ela o achou e o comeu, mas, como seu Clovis não sabia disso e ficou bravo com a sujeira, ele matou a galinha Piradinha e pediu para dona Judite fazer uma galinhada (ele adora galinhada.).

Dona Judite fez a galinhada. Seu Clovis comeu a galinhada e morreu de infarto fulminante sobre a mesa. Dona Judite chorou, mas pouco, e, em alguns dias, começou a namorar o vizinho, Carlinhos. Antes disso, foi cagar a galinha Pintadinha, e as filhas da baratinha Lulu acabaram comendo a penosa em forma de cocô.

Carlinhos não tinha medo de nada: nem de barata, nem de escorpião, nem de canivete. Por isso, morreu no bar. Dona Judite foi ao enterro dele também.

Debaixo da terra, bactérias, fungos e vermes comeram seu Clovis e Carlinhos. Antes disso, no necrotério, amigas da Baratinha Lulu, tinham comido algo de mãos, pés, boca, cílios e olhos dos dois mortos.

Dona Judite se lembrou do marido e do namorado e chorou, pouco, mas chorou. Enquanto o fazia devorava uma barra de chocolate que tinha acabado de comprar. Nela, havia um pouco de baratas trituradas. Quando está triste dona Judite gosta de comer chocolate (e barata também, mas nem sabe.). Dona Judite tinha que ir à luta novamente: amar.

Mas, antes disso, um míssil teleguiado carregado de ogivas nucleares vindo do norte atingiu em cheio a casa da dona Judite. Não sobrou quase nada vivo, nem as baratas.

Deus não chorou por ninguém, não se importou, pois, se é o que há de mais supremo, como poderia se incomodar com a vida e a morte, a dor?

NATAL ENCANTADO NO RECANTO DAS EMAS


Autor: Porto de Carvalho
Escrito em 15/7/2017

Namorava uma mocinha linda e sem graça: branquinha, magrinha, olhos verdes. Dava para ser modela fotográfica. Tadinha... sozinha neste lugar como eu (sem parentes), convidou-me para passarmos o Natal na casa da mãe adotiva que arrumou onde trabalhava.  Fomos.

Você pega uma dessas vias do DF, todas, em que é impossível pedir informação, em que nas paradas de ônibus pessoas tristes não conversam umas com as outras, e vai direto toda vida.

Pronto! Chegamos! O recanto é das emas, mas não se vê uma das aves. Temos que parar urgentemente com essa mania de substituir em toda natureza bichos por homens. Vocês repararam que mais gente, mais estudantes, mais professores, mais livros, mais informação, mais ciência, mais religião não melhoram o mundo?

Fomos muito bem recepcionados. Um dos convidados do local, com um sorriso maligno no rosto, ofereceu-me uma latinha de Skol. Fingi que aceitei a dádiva. Assim, podia estudá-lo melhor. Depois, minha namoradinha disse-me que o rapaz tinha muito interesse nela. Desconfiei... família... às vezes, sua namorada ou esposa apresenta para você o primo especial dela, e você nem sabe o quão especial ele é.

O Natal estava animado e com muitos comes e bebes. Na TV, passava o comercial da Coca-Cola. Sobre a mesa, Coca-Cola. Mas pela chaminé nada de Papai Noel. Ih... nem chaminé há. Só pinheiros de mentira.

Conheci o bom filho da dona da casa. Ele estudava Filosofia na universidade, um dos melhores cursos que há. Tinha acabado de concluir o primeiro período do curso.
O futuro filósofo, antes de atacarmos a mesa, resolveu convocar todos para orar. Pensei comigo: que legal! Um filósofo cristão! Ainda há (sempre haverá), filósofos cristãos. Mas deve sê-lo ainda porque está no início no curso.

Juntamo-nos na espaçosa cozinha de mãos dadas e em círculo. No centro da roda, havia um pinscher. Pinschers são feios. Parecem uma mistura de cachorro com rato ou morcego. Tive um vira-lata com um quê de pinscher que chamei de Morceguito. Donos de pinschers geralmente são nervosinhos ou simplesmente magrelos.

Aí, o rapaz começou a agradecer a Deus e a Jesus por tudo. Estava lindo, muito lindo. Só que, de repente, o cãozinho da família grudou na perna de um dos netinhos da anfitriã e começou a fazer cachorrinho no menino. O menino tinha, no máximo, uns seis anos de idade. Ninguém se aguentou e explodiu em risos, inclusive o menino. E o filósofo puxando o cachorro para um lado, e a vovó puxando o menino para o outro. Ufá! Soltou! A vovó deu um tapa no bumbum do cachorro e ele saiu para lá. Onde já se viu isso, gente? Um cachorro pedófilo, incestuoso (para nós, pois entre os cães não se inventou ainda o incesto.) e adepto de relações sexuais com membros da espécie humana. A oração continuou muito mais natural.

Eu e ninguém na casa nos preocupamos com o ocorrido. Sabíamos que os cães são filhos de Deus. Por isso, fomos comer. A única coisa que me preocupou um pouco, só um pouquinho, foi o olhar maligno daquele que me dadivou. 

DAS ESTRUTURAS DE BONDADE


Autor: Porto de Carvalho
Escrito em 12/7/2017

As estruturas de bondade são construídas para se fazer o bem. Nelas se esconde o mal. O mal descobriu que sorrateiramente cumpre muito melhor o seu principal papel: combater o bem. Por isso, nelas nunca se consegue fazer o que se tem que fazer perfeitamente.

Existem vários tipos de estruturas de bondade, e elas têm diversas funções. Algumas delas (estruturas e funções): uma escola serve para educar pessoas; um hospital serve para curar enfermos, acidentados e salvar vidas; uma delegacia serve para apurar crimes; um tribunal serve para julgar crimes; um exército serve para defender um país de possíveis invasores; um sindicato de trabalhadores serve para defender os direitos de uma categoria profissional; um jornal serve para divulgar informações; uma prefeitura serve para gerenciar uma cidade; uma igreja serve para trazer o conforto espiritual aos homens de fé.

Numa escola, há professores que pessoalizam a aula, deixando a disciplina de lado; num hospital, há médicos que matam por omissão motivada por egoísmo e ambição material; numa delegacia, há crimes engavetados por desencanto com a sociedade; num tribunal, há julgadores que deveriam ser julgados; num exército, há invasores; num sindicato, há trabalhador amigo de empresário; num jornal, há desinformação; numa prefeitura, há prefeito que desvia a verba da cidade para a sua casa; numa igreja, há pregador que só fala de infortúnios, o que leva, na verdade, ao desconforto espiritual.

As estruturas de bondade não se fizeram. Foram feitas (e são feitas) pelos homens. Infiltrados em todas as estruturas de bondades, nos quatro cantos do mundo, há homens maus que as movimentam de acordo com seus interesses. O que os “donos” das estruturas de bondade querem é poder. Não são, então, nessas estruturas que eu não confio, são nos homens maus que as movimentam. Por isso, sempre tomo muito cuidado ao me relacionar nas estruturas de bondade, confio (nelas) desconfiando (dos seus agentes, pelo menos de alguns deles, ou melhor, num primeiro momento, de todos eles.).  


CAVALO


Autor: Porto de Carvalho
Escrito em 13/7/2017

Hoje, acordei com o barulho da mijada do meu vizinho de parede. Os homens mijam como cavalos. As mulheres fazem xixi. Os homens peidam alto. As mulheres peidam baixo, mas não flatulam. Flatular é uma palavra muito feia para mulher, é como mijar ou cagar.

Será que, se eu fosse importante, não morasse numa quitinete, mas num tríplex, ainda sim ouviria a mijada do meu vizinho?

O ruim de morar em prédios de apartamentos é ter que pagar muitas vezes um condomínio arrombador. É como ser estuprado por um cavalo, a não ser que se possa morar num tríplex. Quem mora num tríplex pode pagar – e às vezes cobrar – qualquer taxa.

O meu sonho era ter um cartão de crédito mágico, que, a cada compra que fizesse, pudesse pagar a minha conta, furtando de maneira randômica um centavo de real das contas de todas as pessoas possuidoras de contas bancárias, sem repetir a mesma conta bancária num intervalo grande de tempo. Ninguém ia perceber, e os cubanos, que geralmente não têm conta bancária, não seriam afetados. Eu até emprestaria o cartão para vocês.  

Hoje em dia, do apartamento do meu vizinho, só escuto a sua mijada. Mas, antes, quando ele namorava (acho que era namoro.), ouvia gemidos de mulher. Ela está fingindo. Não é possível. Muitas mulheres fazem cada coisa para agradar os homens... e eles ingratos revirando os olhinhos em dois minutos. Ela gemia alto, mas, tenho certeza, fazia xixi (não mijava) e peidava (não flatulava) baixo.

Eu a imaginava como o brasileiro (a maioria) gosta: morena, cabelo comprido, bumbum grande com um pouco de celulite, cintura fina e seios pequenos. Mesmo assim, nunca bati punheta pensando nela. Na época, tinha muitas mulheres (tinha!? Não sei se mulher se tem...). Hoje também. Não a imaginava, por exemplo, asiática. Mas isso tem a ver simplesmente com o fato de ter nascido no Brasil.

Uma vez namorei, por duas semanas, uma sansei (ou seria nissei? Não me lembro.). Só sei que ela era, biologicamente falando, 100% japonesa, mas, culturalmente falando, 80% brasileira. Ela adorava dançar forró e tinha dificuldade para chegar ao orgasmo (e não era só comigo). Um dia falei para ela: dançar é manifestar-se sexualmente. O forró é uma dança muito sexual (não é à toa que nasceu no Brasil. Freud, você tinha que ter conhecido este país!). Por isso, você sai para dançar, para se libertar, manifestar-se sexualmente. E ela concordou, ressaltando os movimentos da dança, e me explicou sobre o segundo chakra, coisa de orientais, cheio de sabedorias. Ela era (ou é) muito chata: queria sair toda hora.

Vocês sabem, né? Gosto da natureza. Por isso, tenho, de pelúcia, uma mamãe chimpanzé com seu filhinho. A macaca é enorme. Aí, a japonesa olhava para a pelúcia gigante e me perguntava (perguntou umas três vezes.): “você transa com este macaco?” Macaco, no masculino mesmo. É brincadeira... rs... aí, eu levava na esportiva e falava: transo, olha embaixo do bicho, há até um buraco. Japoneses gostam de punheta, siririca e robôs. Um dia, nascerão do Japão robôs amantes perfeitos, com fluídos corporais e com todos os tipos de cheiro de sexo.

No Japão, as pessoas estão há décadas trocando o mundo real pelo virtual. É triste... é comum japoneses irem a profissionais japonesas que limpam ouvidos para ter certo prazer, ínfimo para nós, o máximo para eles. É assim: eles deitam a cabeça no colo delas, e elas limpam os buracos auditivos deles, e eles pagam por isso. No Brasil, pagamos por muito mais e ainda saímos insatisfeitos.

Hoje, do apartamento do meu vizinho, não escuto barulho de mulher. Escuto um barulho triste de mijada de homem, tão bruto, tão pouco feminino, parece um cavalo.