sábado, 29 de julho de 2017

CUBA


Autor: Porto de Carvalho
Escrito em 11/7/2017

Em Cuba, você vai à sorveteria em Cienfuegos, por exemplo, e pergunta: tem sorvete de quê? Aí a moça responde: somente de morango. Aí, você escolhe sorvete de morango, é claro. O sorvete vem quase derretido, bom para tomar. Em Cuba faz muito calor e não tem essa de ar-condicionado. Mas a guloseima vem toda bonitinha, com uma fatia de goiaba em cima. Naquele dia, só tinha sorvete de morango, com uma goiabinha em cima. Mas estava tão gostoso... lembro-me de uma infância rosada, feliz, em que se abria a goiaba da variedade a mais docinha, tirava-se (ou não) os bichinhos brancos com os dedos e se deliciava.

Em Cuba, quase não há chocolate. Eles também ficam moles por lá. Mas tem café quente, mesmo que não estejam em garrafas térmicas com alça. Café que já foi mole, vermelho, e ficou duro, escuro.

Em Cuba, pode-se olhar pelas prateleiras, vendo algo maior que coisas, e lojas de sapatos ou roupas são bem mais raras que no Brasil. Mas, em uma delas, havia, em prateleiras quase vazias, duas marcas brasileiras.

Em Cuba, fiz amigos rapidamente: jineteros. Queriam me levar para conhecer cubanas numa boate e tomar rum. As cubanas são lindas. Como resistir? Mas aí uma cubana muito mais amiga que eles, num banco de praça, me falou do perigo de quem toma rum com desconhecidos conhecidos por lá. De qualquer forma, a maioria das pessoas de lá são do bem. Ela queria namorar-me, mas aí passou um carro com uma sirene grandona em cima, e ela levantou-se correndo do banco. Em Cuba, quase ninguém se engraça com turistas. Medo da polícia. Em cuba, o “taxista” me perguntou: “prefere brancas ou negras?” Respondi: “negras.” Retrucou: “só podia ser turista mesmo.” Todos temos preconceitos. Ele disse-me que ele, as israelenses que dormiam no banco de trás e eu somos drigueños, nem branco, nem negros. Lá o gene para olhos cor de folha seca nem parece recessivo. Peles escuras e olhos coloridos. Mas, no interior da ilha, há mais brancos que negros e ameríndios.

Em Cuba, infelizmente, ainda é tipo Casa Grande & Senzala: você entra na casa em que se hospedará, e os anfitriões são um casal ainda muito espanhol que só pensam em ouro. Aí num computador velho, no corredor, está uma moça drigueña, secretariando. Aí, na arrumação tem uma mulata e, na cozinha, uma negra linda. 

Em Cuba, sempre há boa música. Não inventaram a ruim ainda por resistência, pois, como no mundo capitalista, há cubanos que querem ganhar dinheiro rápido e/ou fugir da ilha. Vi um cubano todo bobo e fiquei com vergonha. Vestia a roupa do capitão américa: óculos, camisa e bermuda com listras e estrelinhas. Filmes de super-heróis, quase todos, são horríveis. Mas depois falo sobre isso.

Em Cuba, tem uma religião muito bonita: a Santeria. Religião numa ilha socialista, dicotomia. O socialismo como utopia acreditou ser possível destruir o indestrutível, o santo e a Santeria.

Em Cuba, quase não têm supermercado, nem mesmo mercados. Mas, em muitas casas há vendinhas. Por isso, quase ninguém passa fome ou se humilha.

Em Cuba, as criancinhas ficam nas creches suspensas sobre o chão, numa espécie de berço que se constitui numa estrutura de ferro em que o leito é um tecido, tipo uma redinha. É uma gracinha e parece confortável. Em Cuba, as crianças praticam muito esporte. Em plena Havana, em praças, se vê a eles com os professores desenvolvendo músculos e ossos. Corpo são, mente sã.

Em Cuba, as pessoas perguntavam-se: onde está Fidel? Está vivo? Está morto? Qual o nome da sua esposa? Quantos filhos tem? Mas Fidel morreu.

Em Cuba, um suíço perguntou a um cubano o que era aquilo. Era coco. O cubano vendia água de coco, e, vocês acreditam?, ele não sabia o que era. Foi, em Cuba, que ele sentiu, pela primeira vez, o gosto da água de coco. Aí, perguntei ao suíço. Il n’y a pas de coco en Suisse (realmente não vi lá, mas deve ter. Na Suíça, tem muito dinheiro furtado...)!? E ele respondeu que não, que talvez na Itália fosse possível encontrar o fruto. Ce n’est pas possible... sabe aquele taxista cubano? Então, ele me disse que os turistas mais difíceis para se lidar são os israelenses e italianos. Todos temos preconceitos. Aí, perguntei: e os brasileiros? “Brasileiros? Você é o primeiro que vi.”

Em Cuba, são outros tempo e espaço. Cuba descobriu a goiaba orgânica. Cuba está na frente em muitos aspectos (não em todos), e poucos percebem.

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